segunda-feira, 14 de julho de 2008

Filosofando

Eu reflito e filosofo profundamente com meus botões - o grau (leia-se profundidade) destas divagações depende enormemente do tipo de música que eu estou ouvindo. Agora, por exemplo, eu estou ouvindo Serenata Espanhola (um exemplo aqui e outro aqui). Acho que a música deve ressonar com meu cérebro e eu divago mais profundamente nestes momentos...

... três horas depois...

Resolvi trabalhar um pouco, revisando o código do carinha que trabalha comigo, refatorando as piores partes para permitir que o código seja mais "expandível" no futuro. Agora o ímpeto de trabalhar já passou e eu preciso ir escovar os dentes, que desde o almoço já se passaram quatro horas. A filosofia saiu e entrou o bafo de onça no seu lugar. Aliás, será que onça tem mesmo bafo de onça? Taí uma questão que eu pretendo morrer sem ficar sabendo, já que eu posso muito bem morrer aprendendo a resposta para esta questão.

Hoje eu estava lendo uma reportagem na revista Veja sobre a necessidade de imigrantes para países de Primeiro Mundo (como Canadá, Estados Unidos e quase todos na Europa). Mesmo podendo exportar muito mais gente qualificada, o Brasil é um país com o menor número de emigrantes qualificados no mundo. Ou seja, gente que poderia imigrar legalmente para um outro país mas não o faz por n motivos. Eu tenho na minha cabeça que pode ser alguma coisa cultural mesmo:

. Impressão que vai ser impossível viver longe da família e dos amigos (mas se até os Italianos saíram da Itália, porque não os Brasileiros saírem do Brasil?);
. Para o Canadá, medo do frio - olha, o inverno é frio, não vou colocar panos quentes não, mas até que aqui tem verão (e Canadense mora em casa - aquecida - e não em Iglú);
. Falta de "cultura global". Um dia no Orkut eu vi uma menina que escreveu - "não quero conhecer nenhum outro lugar do mundo porque no Brasil tem tudo que eu preciso conhecer". Ledo engano, o resto do mundo também é interessante;
. Medo não ser aceito (preconceito) - eu acredito que isto seja verdade para quem viaja para os Estados Unidos e talvez para alguns países da Europa. Aqui no Canadá, imigrante costuma ser muito bem aceito, mesmo na média ganhando menos do que quem nasceu em solo Canadense;
. Amor à praia, caipirinha, churrasco, cerveja, pastel no final de semana, catupiry, feijoada, futebol na TV e outras coisas que o Brasil tem a oferecer. É, aí não tem jeito, tem que colocar tudo na balança e ver o que é melhor.

Aqui no Canadá existem muitos Chineses, Filipinhos, Indianos (Hindús) e outros povos. A minha opinião sobre algum destes povos ficou pré-concebida (é, preconceito mesmo) pela incompetência alheia na empresa onde eu trabalho. Eu tive a impressão, no começo, de que todo Chinês era ou incompente ou mal-educado, porque os que eu conheci no começo eram as duas coisas juntas. Depois de um tempo, comecei a observar melhor as pessoas (sem nenhum pré-julgamento), e percebi que os Chineses são mais simpáticos do que eu imaginei a princípio, e eu acho que às vezes eles ficam mais reclusos mesmo porque alguns tem uma dificuldade imensa de adaptação e aprendizado do idioma. Uma coisa que alguns não tem é noção de espaço mesmo, mas acho que dá para entender isso sendo a China um país com um bilhão de pessoas (embora incomode um pouco mesmo).

Como no meu trabalho novo existem vários desenvolvedores da China na equipe, vou "zerar" todas as coisas que aconteceram no meu trabalho atual e entrar no time sem nenhuma idéia pré-concebida. Vamos ver no que vai dar.

PS: Não estou falando de filho de Chinês ou de "raça", porque este tipo de preconceito eu acho que eu não tenho. Estou falando de imigrantes Chineses que carregam muito dos seus vícios profissionais no país de origem, o que pelo menos no meu caso foi um problema sério de "sabonetar", atirar pedras para se defender e extrema incompentência. Mas foram três casos isolados e, como eu disse, é hora de deixar as mágoas para trás e ir em frente. Sobrou um Chinês aqui, o Yong, tímido que só ele (e com dificuldades imensas de comunicação), mas que é razoavelmente competente e que eu resolvi tentar voltar a "guiar" nestas últimas semanas, embora ele também sofra de algunas lacunas profissionais, a maior dela poderia ser definida como a incapacidade de escrever com qualidade "A", no geral ele ficaria no "C" (passa de ano, mas sem nenhum mérito).

PS 2: Hoje eu vi um cara no guichê do Alberta Health Care (um senhor Chinês, na verdade), tentando preencher um formulário e conversar com a atendente, sem falar uma palavra de Inglês. A moça que estava no atendimento teve que despachar o coitado - não dá para ela fazer nada se ele não entende uma pergunta simples como "quando você foi demitido?". Eu já vi isso aqui uma dezena de vezes. Acho que são pais de imigrantes qualificados que vieram em programas de reunificação familiar. Vendo a dificuldade que eles tem com o idioma até que eu entendo porque existe tanta Chinatown poraí.

PS 3: No ano passado fomos na piscina do Eau Claire e tinha uma menininha Chinesa de uns dois anos correndo na água com a fralda total, absolutamente e fartamente cagada. Aquela imagem ficou de uma maneira registrada na cabeça da gente que até hoje não voltamos naquela piscininha :-). Taí mais uma idéia a ser combatida - que haverão crianças cagadas na piscina pública.

PS 4: Solidão é uma coisa engraçada. Eu não me sinto sozinho aqui porque eu tenho a Soraya e o Arthur e a gente tem alguns amigos - é lógico que eu sinto muita saudades do Brasil, família e de todo mundo que ficou para trás, mas solidão mesmo é algo que eu não sinto aqui - até que se porque eu sentisse, voltava para o Brasil rapidinho. É engraçado porque eu tenho a impressão que os povos de outros países (Índia, China, Paquistão) se sentem mais sozinhos do que os imigrantes Brasileiros, mas sei lá porque cargas d'água eu penso nisso. Acho que deve ser porque eu não conheço a cultura deles, ou então é porque são eles que ficam com a cara mais séria nos trens e ônibus da vida.

PS 5: Falando de solidão, era engraçado a imagem que eu fazia das cidades vistas na beira da estrada à noite, viajando de carro. Como você só vê umas luzinhas e nada mais (só dá para ver as luzes das ruas à noite), dava a impressão que era todo mundo sozinho. Bom, dependendo da cidade ninguém coloca o pé na rua à noite mesmo.

Eu ainda acho que não dá para imigrar sozinho - tem que ter família junto. A casa da gente acaba sendo o nosso santuário. Como dizem em um comercial na TV, o lugar mais importante do mundo é a casa da gente.

Bom, preciso ir escovar os dentes e dar um jeito no bafo antes de usar o sistema de transporte público da cidade.

Fui!

3 comentários:

Ana disse...

Essa da onca foi engracado! hehehe

Agora, sobre os chineses, algumas das suas observacoes sao verdadeiras sim. Acho que tambem depende de qual regiao da China eles sao. Os de Hong Kong costumam ser mais descolados e menos cabecas-ocas. Mas eu ja confirmei que sim, os chineses, sao meio complicados de trabalhar. Eles sao extremamente leais, comprometidos, sabem obedecer ordens, mas nao sabem mandar. Tem dificuldade enorme de decidir, e ficam sempre na defensiva.

Ah, tambem nao dirigem muito bem. ;) Isso voce ja deve ter percebido tambem, ne?

E nao to criticando por "racismo" nao, foi o que voce falou - sao diferencas culturais, que a gente aprende a conviver com elas. A maioria no meu trabalho eh de chineses, e todos sao super competentes. :) Tomara que vc tenha mais sorte com os colegas no trabalho novo!

Pai dos trigemeos disse...

Ravi,
gosto de filosofadas. Essa foi otima, bem instrutiva. Valeu.
tudo a ver mas nada a ver, me fez lembrar do Rala Ricota, do Angeli, o grande Rala. lembra dele?
abracos,

Ravi disse...

Octávio:

Eu não lembro do Rala Ricota não, e olha que eu gosto do Angeli. Eu conheço bem outros personagens, como os Skrotinhos (meus preferidos), Wood & Stock (eu acho que se escreve assim), entre outros.

Ana:

Pois é, eles dirigem mal mesmo :-), eu já reparei isso. Tem uma mulher da África na escola da Soraya que também dirige mal, de dar medo, segundo ela.

Mas a gente precisa aprender a viver mesmo com estas diferenças, afinal não é mesmo esta a proposta do Canadá, no fim das contas? O que você falou dos Chineses no ambiente de trabalho é exatamente o que eu sinto. Gente que fica na defensiva é um saco, porque normalmente não assume responsabilidade pelas coisas que faz e gosta de colocar os erros nos outros.