quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Are we becoming a nation of bigots?

Tradução meia boca:

Estamos nos tornando uma nação de intolerantes?



Saiu em uma revista daqui, a MacLean's, uma espécie de veja Canadense (para ler clique aqui). O foco da reportagem era a crescente intolerância à algumas culturas estrangeiras entre os Canadenses mais tradicionais.

Para quem não sabe, o Canadá tem uma proposta "multicultural", ou seja, os povos que imigram para o Canadá são estimulados a manter a sua cultura original. Mas nem sempre isto funciona. Em algumas províncias, mais especificamente em Quebec (onde se fala Francês), uma grande parte da população não aceita bem que alguns povos mantenham a sua cultura, bem especificamente os oriundos de países onde o uso da burca é um costume ou uma obrigação.

O argumento comum de alguns dos opositores mais radicais do multi-culturalismo é que eles não querem sair de casa e se sentir no Oriente Médio. Teoricamente, eles não tem nada contra os imigrantes em si, mas sim em relação ao fato deles não se adaptarem à "cultura" do Canadá (ou seja, não deixarem de usar a burca). Mas pode ser também um reflexo do 11 de Setembro, ou seja, o medo que os "nossos" muslims fiquem ruins como os muslins deles. Aqui há muitos imigrantes do Irã, Iraque, Paquistão e o Canadá tem tropas no Afeganistão e Iraque. Recentemente alguns imigrantes foram presos em Montreal acusados de planejar atentados terroristas. Tudo isto vai levando à uma situação onde estes radicais aparecem com mais frequência.

Recentemente, houveram dois eventos recentes que colocaram mais lenha na fogueira:

- Em um julgamento recente de um jovem muslim, três jurados pediram dispensa porque achavam que a opinião deles sobre a culpa do réu poderia ser afetada pela sua religião e origem;
- Um hospital judeu foi condenado à pagar 10000 dólares de indenização à um funcionário que foi punido por ter levado comida não kocher ao refeitório.

O mais curioso é que os estados onde há menos problemas com as culturas estrangeiras são aqueles que seriam os mais tradicionalistas, como Alberta (onde eu vivo), as pradarias e as províncias do Atlântico.

Minha opinião

Quando eu vim para o Canadá, eu achei bem estranho esta questão do multi-culturalismo. Eu havia lido que há um certo preconceito em relação aos Chineses porque eles são mais difíceis de se adaptar. Segundo um colega Chinês, muitos pais costumam mandar os filhos nascidos no Canadá estudar na China, para manter a sua cultura original e aprender o idioma e a linguagem desde cedo.

Particularmente, a minha opinião é de que você deve se adaptar à cultura local. Se você está indo para um país novo, que vai ser o seu novo lar, porque não aprender direito o seu idioma e adotar alguns de seus costumes e, bem especificamente, se integrar à sociedade existente? Mas esta é a minha opinião particular. É algo que eu tento fazer. É claro que eu fico extremamente feliz de encontrar outros Brasileiros e que faço questão de ir em festas ou eventos organizados por Brasileiros ou onde eu sei que vou encontrar algum (quando eu posso ir ou quando cabe no orçamento).

Mas forçar a adaptação de alguém à minha cultura é algo que eu considero realmente radical. Eu aqui sou como uma criança branca que nunca viu um negro na vida. Eu fico extremamente curioso e acho interessante esta miscelância que nós temos aqui. Eu nunca vi um hindú de perto e nem tantas mulheres vestidas com a burca. No começo me causou surpresa, agora já me acostumei. E, embora eu valorize a adaptação à cultura local, não me oponho à proposta do governo Canadense de que os povos oriundos de outros países mantenham a sua cultura.

Quando eu li esta história de Quebec e esta questão dos mais radicais, lembrei na hora de duas coisas:

- Na World Fest eu conheci uma mulher que morou em Quebec por vários anos e tinha se mudado para Alberta fazia pouco tempo. Ela se sentia muito mais em casa aqui do que por lá, pois o povo é muito mais acolhedor poraqui. Além de tudo, Quebec tem um movimento forte separatista e nacionalista, o que combina bem com este sentimento de "somos Canadenses da gema" que eles parecem demonstrar ter;
- Na França, há alguns anos, houveram alguns conflitos relacionados à esta questão. Há uma ótima opinião aqui.

O Canadá só chegou aonde chegou por causa da Imigração. Não sou eu que digo, é a reportagem. Atualmente, há uma demanda muito grande por trabalhadores e o Canadá só voltara à crescer se mais e mais imigrantes forem aceitos aqui. Provavelmente teremos muito mais imigrantes de países Islâmicos. Concluo com a conclusão da revista, a única maneira de pode ter um Canadá multi-cultural e pacífico é aprender a viver com as diferenças.

Para quem não está aqui, uma coisa chama a atenção. O Canadá não é miscigenado como o Brasil. Os brancos são brancos, os negros são muito negros, e poraí vai. Isso pra mim é um efeito negativo do estímulo que cada povo tem para manter a sua cultura. Uma das coisas que o Brasil deve se orgulhar é de ter mais pardos hoje em dia do que há trinta anos atrás. Não porque temos menos negros ou menos brancos. Mas porque esta é a maior prova de que o preconceito racial no Brasil não é um problema tão sério. Há problemas, com certeza, mas são menores do que os problemas raciais daqui (ou dos Estados Unidos).

E como eu me sinto?

Eu me sinto aceito e adaptado. Mas acho que para o Brasileiro a adaptação é mais fácil. Nós compartilhamos muito de nossa cultura com a cultura Americana (todos os filmes, músicas, e outras coisas), então não ficamos "chocados" nem causamos choque por aqui.

Eu vejo comentários negativos em muitos lugares em relação aos Chineses e, sinceramente, eles não são um povo fácil. Eles costumam ser mais mal-educados do que a maioria (eu já vi alguns casos pequenos), mas eu também já vi outros extremamente simpáticos e amáveis. Minha opinião pode ser afetada pelo meu trabalho (os dois que trabalham comigo variam entre o medíocre e o aceitável, um deles costuma passar do aceitável mas o outro raramente vai além do medíocre), e também pelas entrevistas que eu tenho que fazer. Recebo currículos falsos ou então que não batem com a pessoa que está sendo entrevistada, e isto te faz pensar se todos os Chineses agem deste jeito (isto normalmente acontece com candidatos Chineses).

Eu tento "zerar" antes de entrevistar alguém. Fiz isso hoje. O candidato tinha um currículo impecável mas não conseguiu resolver os problemas mais simples. O meu chefe veio até me perguntar se eu tinha algo contra ele ou se eu senti "inveja" (sei lá, talvez pelo fato do cara ter uma formação melhor do que a minha - o que não é difícil, diga-se de passagem), e eu disse que ele ótimo na teoria mas não conseguia fazer nada na prática.

Infelizmente não foi hoje que eu mudei a minha opinião.

Um comentário:

Marcelo Urbano (da Roberta) disse...

De todo meu conhecimento e meu portugues xulo:

Tenho a impressao que onde se usa burca, onde a mulher é apedrejada se mostrar o calcanhar (pelo menos deveria ser apedrejada, de acordo com o pensamento de quem acha certo usar burca), quem nao usa burca é "impura" ou coisa q o valha.
Essas pessoas que acham certo usar burca, impuros os que nao usam, migram pra um pais onde as teenagers usam mini-shorts. E tem que conviver com isso no novo pais todo dia.

Como fica a cabeca dessas pessoas?
Se fosse eu nessa situacao, vejo duas possibilidades, nao ia aguentar viver muito tempo num pais de impuros que mostram o calcanhar, ja que isso me ofende profundamente, ou ia rever meus conceitos sobre a burca e acabar me adaptando ao pais.

Me conhecendo, se eu nao mudasse minha opiniao, ia lutar pra mudar o pais onde vivo, se sou fraco nao tenho voz, assim que ganho poder posso acabar sendo opressor.
A mioria e quem tem o poder acaba ditando as regras. Como isso funciona num pais onde as minorias sao a maioria?