sábado, 10 de maio de 2008

Hoje a história é meio triste

Eu estava vendo uns vídeos no youtube com o tema "news bloopers", que são aquelas situações inesperadas que acontecem na televisão, e que são muitas vezes muito engraçadas, mas os apresentadores não podem rir porque estão ao vivo e a reportagem tem que ser feita. Como a cabeça da gente é uma máquina de lembrar, me lembrei de uma vez em que isto aconteceu comigo - eu estava em uma reunião em um cliente com meu chefe e um amigo meu, e a gente começou a rir sem parar por causa de uma besteira e eu não conseguia mais parar de rir, não importava a cara que meu chefe fizesse. Este dia foi muito engraçado.

A parte triste da história é que depois eu lembrei que este meu amigo não está mais com a gente já faz 6 anos. O nome dele era Cláudio Fernandes de Assis, e infelizmente ele foi morto em um assalto porque provavelmente um dos assaltantes o reconheceu. A violência Brasileira nunca tinha me afetado de verdade até então, mas desta vez ela chegou perto. O Cláudio era mais um colega do dia-a-dia do que um amigo próximo como o que vem me visitar agora em Maio (Kb.Lo). A gente fez colegial junto, trabalhamos juntos na COSIPA e a minha mesa era do lado da mesa dele no trabalho (na 7COMm). A gente ainda fazia faculdade junto e ia embora para casa no mesmo fretado. Eu tirava sarro da cara dele dizendo que eu passava mais tempo junto com ele do que com a Soraya.

No ano em que ele morreu o Arthur nasceu. Ele ainda ficou sabendo que a Soraya estava grávida e deu o parabéns para a gente, e o que aconteceu, aconteceu poucas semanas depois. É meio irônico esta coisa de morte/ nascimento na vida. A gente ainda conversa sobre ele, sobre como ele estaria agora, o que ele estaria fazendo, onde estaria morando, quanto estaria ganhando, este tipo de coisa. É engraçado porque metade da minha vida profissional foi dividida com ele. A gente começou o programa de estágio juntos e depois fomos para a mesma empresa, e ainda fizemos um projeto para um cara que faz operação de extração de cataratas, um pão duro que mora no fim do mundo, em Cotia, e era casado com uma Americana que era dois de eu. Assim como o Rodrigo Pinho, que agora está morando em Nova Iorque, eu acho que ele também teria pego a estrada depois de ter ajudado os pais dele a deixar a casa em ordem.

Pois é. Eu me lembro de alguns bons detalhes de quando me ligaram para avisar o que tinha acontecido, da mãe dele no velório, e como eu não chorei no enterro. Acho que eu só fui chorar mesmo uns dias depois, mas mesmo assim foi uma coisa contida, mais um "que merda" do que qualquer outra coisa. Por pouco tempo eu senti raiva e queria poder matar todos os membros da quadrilha que fez o assalto (foram todos presos três ou quatro dias depois). Por algum tempo eu fiquei com aquela sensação de "a vida é frágil", que acho que só foi passar de vez quando o Arthur nasceu. Mas depois tudo voltou ao normal. Eu lembro de que algumas pessoas sonharam com ele, eu me lembro também que um dos caras que trabalhava no BCN, que era Espírita, me disse que eles receberam um espírito inquieto e perturbado, mas que pode ser encaminhado para o seu destino, e de tantas outras coisas.

Foi uma época meio estranha. Eu ainda fui trabalhar na Segunda-feira e junto com o Okazawa, um amigo do trabalho que apareceu no churrasco em Santos, esvaziei as coisas da gaveta dele e levei tudo para a família. Isto não foi tão ruim, eu fiquei aliviado de poder ir até a casa dele e conversar de verdade com a sua família. A pior parte foi avisar uma amiga dele no trabalho sobre o que tinha acontecido e ver a pessoa desabar. Isso foi a coisa mais difícil de toda esta época.

Agora já passou. Passou há muito tempo, na verdade. Eu fui no cemitério onde ele está enterrado alguns meses depois do que se passou e vi o lugar onde ele está enterrado - acho que eu devo ter dito algo do tipo "descanse em paz, a gente continua, o Arthur nasceu", e fui embora. Aquelas fotos que eles colocam nas lápides já saem de fábrica com cara de velha.

Depois de um tempo sobra uma lembrança mais doce, mais suave, de como as coisas aconteceram e de quanta coisa que a gente pode compartilhar no tempo em que passamos juntos. Infelizmente, estas coisas acontecem. Infelizmente, aconteceu com ele. Mas felizmente a vida continua, o Arthur está crescendo e aquele ano foi um ano bom, mesmo começando mal. Acho que a vida é irônica mesmo.

Acho que eu nunca escrevi sobre o Cláudio aqui no blog. Mas todo mundo que era daquela época vai se lembrar. Mesmo ele não sendo do grupinho mais fechado da molecada (ele era um pouco diferente da gente), a gente sempre vai te considerar um amigo e vai sempre se lembrar de você. E, desta maneira, você ainda continua vivo.

Um abraço, amigo!

7 comentários:

ReMiGaLu disse...

Linda homenagem.

Pinguinland disse...

Que seu amigo descanse em paz!!!

Raphael (Chuck) disse...

Eu lembro do dia tbm Raw... do Tiago COS ir lá em casa avisar, de avisar o povo, de tudo....

Deu saudade brou....

Ravi disse...

Pois é nego.

Deu saudade também quando eu resolvi escrever este texto!

Aliás deu saudade de vocês também! Vocês tão indo amanhã já, né?

Roberta disse...

Oie, eu lembro do Claudio de uniforme da Cosipa, ele era bonitao. Eu lembro da merda e de pensar "caralho, podia ser qq um de nós".

To numa fase meio "volta as origens" e lembrar do Claudio e de vc e ver essas fotos da federal ajudou um pouco.

Ta fazendo um ano ai e vc sobreviveu, viu só?

Beijo.

Ravi disse...

Pois é, acho que foi o que todo mundo pensou. Qualquer esquina, qualquer virada, pode dar merda. Mas esse sentimento já passou, faz tempo.

Pois é, sobrevivi! E olha que passei por -35 graus e fiquei este ano inteiro sem carro. Que coisa...

Beijos, até mais.

Humberto Ribeiro de Souza disse...

Olá Ravi,

Hoje, estou também no Canadá. Lembrei do Claudio, como sempre lembro, de como ele era legal, boa pessoa e bem sucedido para a idade.
Não consigo imaginar que a violência é algo 'normal', principalmente depois de vir para cá.

Vir ao Canadá e se estabelecer é mais difícil do que parece. Mesmo com toda a papelada na mão.

Deixo um abraço à todos os amigos, e agora também ao Raphael.
Que vivamos nossas vidas em homenagem à eles e à todas as pessoas que amamos!

Um fortíssimo abraço.